quinta-feira, 24 de setembro de 2009

A Praia do Anti-anjo

PARTE I

Quem diria que, um dia, eu estaria à beira de uma praia. Uma praia real, com ilhas ao redor... com florestas atrás da areia, com morcegos à meia-noite, com um pensamento amável de alguém. Tudo era tão pacífico; inclusive o meu desejo. Desejo de deitar-me à areia quente pelo sol fervente das veias de Sanzio, que não são salgadas. São quentes com o sol, quando querem, e são frias, quando querem, com sol... Estranho, não? Geralmente as veias são salgadas. E quando são, são deliciosas, e ímpetas. Mas são de cuspir no final. O final é amargo...
Sanzio tinha veias bonitas; sem gorduras. Seu corpo era fraco quando começamos o namoro, mas o tempo foi passando, e seus músculos foram aparecendo. Ele começou a trabalhar em construções, para conseguir um dinheiro, pra que pudéssemos casar logo. E não é que casamos? No começo, eu não levava muito à sério. Mas percebi que Sanzio levava, então segui os passos de meu amado...
A praia era linda... era tão calma... o sol ainda não tinha esquentado toda a areia. Algumas partes estavam geladinhas, e bem gostosas. Tinha um moço numa ilha, a uns 5 metros (muito pouco, dava pra ir andando) de distâncias da beira. E mais longe, uns 15 metros, tinha uma ilha maior... com várias árvores. Eu tinha 2 filhos com meu amado Sanzio. Ícaro tinha 3 anos, e Diógenes tinha 5. Eram umas belezuras. Eram crianças... como eu fui um dia. Eles espelhavam Sanzio, pela força de caráter, pelo olhar de querência; e quanto à timidez, lembrava a mim, e lembrava Sanzio, com seus 16 anos. Nessa época, meu amado não sabia falar o quanto me amava... ele dizia, mas não como eu queria ouvir. Não é que eu não queria ouvir; ele apenas falava de um jeito, que não parecia que era amor de verdade. Parecia algo falso, ou confuso, ou seja, não parecia que era realmente um amor forte. Ele se ajoelhava em meus pés, quando terminávamos, ou melhor, quando eu terminava. Se ajoelhava, e pedia para que voltássemos... Pedia para eu perdoá-lo, falava que se arrependeu do que fez, falava sobre promessas que iria fazer. E tais promessas eram muito fortes; meu desejo correspondia a tais promessas, e meus desejos, por mais ocultos que fossem, eram ferventes. e ainda, ele me oferecia promessas sobre desejos, em que eu sonhava... Sonhava, e muito, muito. Esse foi um dos motivos em que comecei a levar à sério... Foi quando percebi de que, ele era a única pessoa que me oferecia tudo que eu queria... e o que eu queria, era além de amor. Eu, apesar do arrependimento, estava com ele por estar. Era indiferente namorar... mas quando eu não o tinha mais, eu percebia a falta que ele realmente fazia. E essa foi a pior coisa que eu fiz. Eu deveria ter dado o devido valor no começo do namoro; pois quando começo a ficar com alguém, é porque estou querendo levar o relacionamento (pré-namoro) à sério. Foi por essas má atitudes - e tantas outras - que Sanzio fez o que fez.
A praia estava deserta. Vazia. Fui, sem medo, com meu biquíni laranja-fogo e deitei-me na areia, já quente. A tranquilidade do sol me pacificava... eu conseguia esquecer todos os meus atos ruins que fiz com Sanzio. Todas as minhas atitudes que o prejudicaram, que o fizeram sofrer, que o fizeram chorar, a gritar por meu nome. Eu amava Sanzio.
De repente, um homem, do nada, surge na praia. Eu, deitava, tranquila na areia, fico incomodada com a presença daquele homem, que se chamava Leório. Leório, a muito tempo, foi meu namorado. Tínhamos namorado por um tempo ideal, uns 3 anos mais ou menos. Foi bastante, mas não tanto para mim. Com Sanzio foi algo muito mais intenso; muito mais... não sei explicar. Foi diferente; as dores eram maiores, e as alegrias também (é claro, tinha que ter esse parâmetro de igualdade entre opostos, não é?). Foi algo... muito especial. Com Leório também tinha sido... ainda é. Mas depois que ele começou a se aproximar naquela praia, se aproximar perto de mim, naquela praia deserta... eu desanimei. Eu queria continuar deitada, mas Leório me forçava a fazer algo que eu não queria. Eu estava semi-nua, com meu biquíni laranja-fogo, e minhas crianças ficavam rolando perto de mim. Enquanto isso, o homem dos 3 anos ficou se esfregando em mim, falando que queria ficar comigo... Falando que queria ficar comigo, tentava me convencer que ficar com ele seria melhor; ou então, achava que eu ainda pensava nele... Achava que, se ele viesse para me beijar, eu aceitaria. NÃO. Não quero aceitar, amo Sanzio, e nada mais importa na minha vida do que o Paraíso que construímos juntos.
Eu negava infinitamente para Leório que não ficaria com ele, de nenhum jeito. Ele me forçava, segurava meus braços, e tentava me envolver com suas ressurreições amorosas. Digo NÃO, digo NÃO. Suas mãos não me fariam convencer que estas seriam para sempre, como as de Sanzio. Sanzio...Sanzio...Sanzio... Eu só pensava nele. Pensava, e amava ele mais do que minha própria vida. Ele era a razão de tudo... de minha casa, de meu jardim, de meus filhos. Razão do meu próprio eu...
E meus filhos, ficavam brincando ao redor da praia, bem pertinho de mim, enquanto Leório tentava atiçar com suas falsas promessas.

PARTE II

Depois da praia, fui para casa. Meus filhotes, ensolarados depois de tanto sol, se puseram a brincar no meio da sala, com suas fonfulhas, para descansar, depois de tantos raios de luz... Isso me lembrava de mim, quando era criança. Diógenes ficava passeando pela casa, com tanta energia... Enquanto Ícaro, ficava sentado, jogando seu joguinho, esparramado por todo chão da sala. Tão lindo, tão fofo. Tudo estava numa santa paz.
Eu estava deitada no sofá da sala, também descansando. Depois da pele toda vermelhinha, com tanto sol... e depois de tanto discutir e negar-me a Leório. Ele foi chato demais, mas enfim, eu não queria lembrar mais disso. Eu queria esquecer, esperar Sanzio chegar em casa, para ficarmos juntos o resto da tarde, e à noite também. Até que ele chegou...
Sanzio não entrou pela porta. Veio gritando para casa, parecia estar nervoso com alguma coisa... E era com o que eu imaginava. Leório.
Eu tranquei a porta, e ele ficava gritando da janela. Ia dar um "pampero" em casa... Ele já era nervoso um pouco, mas estava sobrenatural aquele momento. Ele se transformou completamente... parecia um monstro. Um monstro que eu já desconfiava que existia. Desde o nosso começo, começo de nosso relacionamento, eu sentia algo de diferente nele. Um tipo de esconderijo, que lá estaria guardado muitos segredos... e que só seriam descobertos, por mim, em tempo indeterminado. Nem com nosso casamento, descobri tudo. Infelizmente...
Sanzio era um monstro. Gritava comigo pela janela, que estava aberta. Ele não conseguia pulá-la, mesmo ele sendo alto. Alguma coisa estava acontecendo... Ele dizia que eu era uma traidora. Dizia que eu aceitei Leório, dizia que eu queria ficar com ele. Perguntava-se porque eu casei com ele, e não com Leório. As palavras começaram a me fazer mal por dentro... elas me cutucavam. Mas tudo que ele dizia, era absurdo. Eu não o traí, eu não beijei Leório. Não me entreguei a Leório. E como ele ousava a dizer que havíamos nos beijados, no meio daquela praia tão vazia? Dizia que rolamos entre as areias e nos deliciamos com o mar... com nossos toques, com nosso amor. Que amor? Eu amava Sanzio. E Leório havia sido apagado de minha vida, para sempre. Ou pelo menos quase sempre... mas isso não vem ao caso.
Sanzio me acusava de traição. Sanzio estava louco, estava pirado. Estava cego... cego de ciúmes, como um dia eu sempre achei que estaria. Tranquei a porta sim, pois o diabo estava para se encontrar comigo, caso eu abrisse... Ele iria me matar se eu abrisse. Mesmo sem provas de minha traição, mesmo sem saber se eu realmente trai... o que sai da bocas dos outros, é o que permanece, para Sanzio. Sanzio... o meu amado... estava com uma faca, esperando eu abrir a porta... abrir a porta para receber a dor de nosso eterno prazer... de nosso eterno amor. Disse que o amaria sobre a tristeza, ou a doença, ou na riqueza, ou na pobreza... mas não disse que amaria ele se ele quisesse me matar. Eu não jurei esse fato. Sanzio queria matar nossos filhos... queria destruir nossa casa. Nossa vida. Nosso amor. Eu não sabia mais se o amava, durante aquele momento.
Destruir tudo... era algo impossível para a capacidade de meu amado. Sanzio não teria a capacidade de fazer tudo isso, sem mim. Se para ele estivesse tudo destruído, para mim, alguma parte só estaria. E não totalmente... Para quê matar nossos filhos? Matar o fruto de nosso amor, de nossa união, de nosso paraíso, de nossa casa... Porque fui me entregar àquele homem, que eu indefinidamente desconhecia-o, naquele momento? Porque fui fazer isto? Todo momento bom... da curiosidade de descobrir o esconderijo, é boa. Mas nem sempre, o que descobrirmos, irá ser bom, para nós, ou para quem o descobriu. Descobri a PIOR coisa do mundo... Mas pelo menos, eu havia VIVIDO o suficiente para descobrir a pessoa o quanto eu AMEI no mundo.
Diógenes, que estava perto da janela, foi o primeiro alvo. Eu não quis nem ver...
Saí correndo com minhas malas (que já estavam prontas, não sei porque), e deixei Ícaro. Até hoje não entendi o porque deixei Ícaro só, naquele chão sem vida, com seus brinquedinhos. Não sei o que aconteceu com meus filhos... Talvez a pilha maligna de Sanzio tivesse estourado na hora de enfiar a faca nos corações de pessoas que saíram dele mesmo. E fazendo isso, Sanzio se mataria. Porque matou algo que faz parte dele. Ele não matou seus membros, ele matou seu próprio coração, se matou seus filhos. Filhos, que saíram de seu próprio organismo, que foram produzidos por ele... e que, se feitos, foram mortos. Se foram, Sanzio também foi. Mas isso, até hoje eu não sei... me resta lembranças do amado que um dia amei intensamente, e que, por certos motivos cegos, foi manipulado pela palavra avulsa de pessoas exteriores à sua vida. Nem se quer, Sanzio pôde acreditar nas minhas palavras, que eram interiores à sua vida e ao seu mundo subterrâneo... Sinto saudades de meu pequeno Sanzio, quando se encostava em meu colo, pedindo para voltar, quando eu terminava com ele. Sinto saudades de suas palavras que eram invisíveis; saudades de seu silêncio... que me trancava a respiração. Saudades dele, dessa pessoa que já foi o meu amado. Mas que, com suas mudanças repentinas e absurdas, não fazem mais parte de meu coração... Nunca direi adeus. Nunca mais te direi não. Eu te amo, Sanzio.

[espere! esse conto não está completo. algumas partes de seu "meio" serão modificadas, pois não foram bem esclarecidas. com mais tempo, farei isso... sanzio,sanzio]

Um comentário:

  1. A praia estava deserta. Vazia. Fui com medo, e cheguei tão perto dela que seu biquíni laranja, parecia fogo.
    Me importava em não me importar com nada mais. Só queria vê-la. Na verdade queria senti-la melhor, além da visão.
    Pensava nela como um sonho bom ou como a vida é assim, vida pra ser vivida. Vida que dá medo mas sem regressar continua a diante, em frente. Titubeio por um segundo ou menos que isso. E sigo a diante, em frente. Mantenho a marcha que me leva ao biquíni fogo, parecia uma laranja...

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